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Practice English Speaking&Listening with: Carl Sagan Cosmos 13 Quem Pode Salvar A Terra (Legendado)

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"Hoje, Eu chamo o Céu e a Terra para testemunhar

que eu pus ante a ti a vida e a morte

a benção e a maldição.

Por isso, escolha a vida para que possa vivê-la,

você, e seus descendentes.”

Há aproximadamente 200 anos, no Golfo do Alaska

em um lugar chamado Lituya Bay

duas culturas encontram-se pela primeira vez.

Os Tlingit

viviam como seus ancestrais há milhares de anos.

Eles eram nômades

deslocavam-se de canoa entre numerosos acampamentos

onde coletavam peixes e lontras marinhas

e comercializavam com tribos vizinhas.

O criador adorado era um deus corvo

que eles pintavam como um enorme pássaro negro de asas brancas.

Em um dia de Julho de 1786

o deus corvo apareceu.

Os Tlingit estavam aterrorizados.

Aquele que olhasse diretamente para o deus seria transformado em pedra.

Do outro lado do planeta, uma expedição se iniciava

liderada pelo explorador francês La Pérouse.

Era a viagem científica mais elaborada do século

enviada ao redor do mundo para reunir conhecimento sobre a geografia

história natural e povos de terras distantes.

Mas para os Tlingit

cujo mundo era confinado às ilhas e enseadas ao sul do Alaska

este grande navio poderia vir somente dos deuses.

Um deles ousou olhá-lo mais profundamente.

Era um velho guerreiro, quase cego.

Ele disse que sua vida estava no fim.

Para o bem comum, ele se aproximaria do corvo

para saber se o deus realmente transformaria seu povo em pedra.

Ele partiu em sua própria viagem de descoberta

para confrontar o fim do mundo.

O velho olhou fixamente para o corvo

e viu que não era um grande pássaro do céu

mas sim o trabalho de um homem como ele.

Este primeiro encontro foi pacífico.

Os homens de La Pérouse tinham ordens

de tratar com respeito qualquer pessoa que pudessem encontrar.

Uma política excepcional para esta época, e as seguintes.

La Pérouse e os Tlingit trocaram bens

e quando a nave estrangeira partiu, nunca retornou.

Nem todos os encontros entre nações têm sido tão pacíficos.

Antes de 1519

os Aztecas do México nunca haviam visto uma pistola

A princípio, acreditavam que seus visitantes estrangeiros

vinham do céu.

Os espanhóis, guiados por Cortez

não receberam ordens contra violência.

Suas verdadeiras natureza e intenções logo tornaram-se claras.

Diferente da expedição de La Pérouse

os conquistadores não buscavam conhecimento, mas sim ouro.

Eles usaram suas armas superiores para saquear e matar.

Na sua loucura, exterminaram uma civilização.

Em nome da piedade

zombando de sua religião

os espanhóis destruíram uma sociedade

que tinha arte, astronomia e arquitetura

equivalentes às da Europa.

Nós criticamos fortemente os conquistadores por sua crueldade e pouca visão

por escolher a morte.

Nós admiramos La Pérouse e os Tlingit por sua coragem e sabedoria

por escolher a vida.

A escolha continua.

Mas agora a civilização que está em perigo é toda a humanidade.

Como os antigos criadores de mitos diziam

somos igualmente filhos da Terra e do Céu.

Em nossa ocupação deste planeta

nós acumulamos perigosas bagagens evolutivas:

propensão à agressão

submissão ritual aos líderes, hostilidade com estranhos.

Tudo isso põe em dúvida nossa sobrevivência.

Mas também adquirimos compaixão pelo próximo

amor por nossos filhos

um desejo de aprender com a história e a experiência

e uma grande, crescente e apaixonada inteligência.

Ferramentas evidentes para nossa sobrevivência e prosperidade.

Que aspectos de nossa natureza prevalecerão

são incertos.

Particularmente quando nossa visão e perspectivas se limitam

a uma pequena parte do nosso pequeno planeta Terra.

Mas acima, no cosmo

uma inevitável perspectiva aguarda.

As fronteiras nacionais não são evidentes vistas do espaço.

Fanatismo étnico, religioso ou nacionalista

são difíceis de aceitar

quando vemos nosso planeta como uma frágil lua crescente azul

desvanescendo até se tornar apenas um ponto de luz

contra o baluarte e a cidadela de estrelas.

Ainda não há sinais evidentes de inteligência extraterrestre

e isso nos faz imaginar se civilizações como a nossa

se precipitaram inevitavelmente em direção à autodestruição.

Eu sonho com isso.

E às vezes são pesadelos.

Uma vez em um sonho

imaginei a mim mesmo

procurando por outras civilizações no cosmo.

Entre uma centena de bilhões de galáxias

e bilhões de trilhões de estrelas

vida e inteligência devem ter surgido em muitos mundos.

Alguns deles são estéreis e desolados

onde a vida nunca começou

ou deve ter se extinguido em alguma catástrofe cósmica.

Devem haver mundos ricos em vida

mas que ainda não evoluíram para inteligência e alta tecnologia.

Devem haver civilizações que alcançaram a tecnologia

e prontamente a usaram para destruir a si mesmos.

E talvez existam também seres

que aprenderam a viver com sua tecnologia e consigo mesmo.

Seres que perduram

e tornam-se cidadãos do cosmo.

Imerso nestes pensamentos

me aproximei de um mundo que era claramente habitado

um mundo que eu já conhecia.

Vi um planeta rodeado de luz

e reconheci sinais de inteligência.

Mas subitamente

se fez total e absoluta escuridão.

Em meu sonho

eu poderia ler o Livro dos Mundos.

Uma vasta enciclopédia

de um bilhão de planetas da Via-Láctea.

O que o computador poderia me dizer

sobre este mundo agora escurecido?

Devem ter sobrevivido à uma catástrofe anterior.

Contato local iniciado:

talvez suas emissoras de televisão.

Sua biologia era diferente da nossa.

Alta tecnologia.

Me perguntei para o que eram aquelas luzes.

Devem ter sido sinais de problemas.

Probabilidade de sobrevivência em um século

menos que 1%. Não muito.

"Comunicações interrompidas."

Sua sociedade havia falhado.

Haviam cometido o último erro.

Senti um desejo de retornar à Terra.

As transmissões televisivas da Terra passaram por mim

partindo de nosso planeta na velocidade da luz.

O tratado anti-nuclear foi assinado hoje...

Algo aconteceu na carreata. Aguardem...

Por 64 mil dólares...

O bombardeio de Hanoi foi planejado para enfraquecer a moral...

Não haverá acobertamento na Casa Branca...

Os lucros de uma série de companhias petroleiras foram revelados...

Se os sérios eventos continuarem...

Os ministros estrangeiros estão neste momento...

Por favor, aguardem...

Aguardem...

Então, subitamente

fez-se o silêncio

total e absoluto.

Mas os sonhos ainda não terminaram.

Havíamos destruído nosso lar?

O que havíamos feito com a Terra?

Havia muitas maneiras de destruir a vida com nossas mãos.

Havíamos envenenado o ar e a água.

Havíamos devastado a terra.

Talvez houvéssemos mudado o clima.

Poderia ter sido uma praga

ou uma guerra nuclear?

Eu lembrei do computador galáctico.

O que diria sobre a Terra?

Era nossa região da galáxia.

Era nosso mundo.

Eu havia encontrado o registro da Terra.

Humanidade, terceiro planeta a partir do sol.

Eles haviam ouvido nossas emissoras de TV

e pensaram que era um requerimento para cidadania cósmica.

Nossa tecnologia havia crescido enormemente.

Eles tinham razão.

200 estados nacionais.

Cerca de seis potências globais.

Potencial para se tornar um só planeta.

Probabilidade de sobrevivência por um século

também menor que 1%.

Assim foi a guerra nuclear.

Uma troca nuclear completa.

Não haveria mais grandes perguntas.

Nem respostas.

Nunca mais um amor ou uma criança.

Nem descendentes para lembrar e se orgulhar de nós.

Nada mais de viagens estelares.

Nada mais de música terrestre.

Eu vi a África Oriental

e pensei que milhões de anos atrás

nós humanos dávamos ali os primeiros passos.

Nosso cérebro cresceu e mudou.

As partes antigas guiaram as novas.

E nos tornaram humanos

com compaixão, visão e razão.

Mas por outro lado, ouvimos a voz dos répteis dentro de nós

aconselhando o medo, territorialidade

agressão.

Nós aceitamos os produtos da ciência.

Nós rejeitamos seus métodos.

Talvez os répteis desenvolvam a inteligência novamente.

Quem sabe, um dia, haverá novamente civilizações sobre a Terra.

Haverá vida.

Haverá inteligência.

Mas não haverá mais humanos.

Nem aqui, nem em um bilhão de mundos.

Todo ser pensante teme a guerra nuclear

e todas as nações tecnológicas a planejam.

Todos sabem que é loucura

e todos os países têm uma desculpa.

Existe uma sombria cadeia de causalidade.

Os alemães trabalharam na bomba

no início da II Guerra Mundial.

E os americanos tiveram que construí-la antes.

Se os americanos tinham, os russos deviam ter também.

Assim como os britânicos, franceses

chineses, indianos, paquistaneses.

Muitas nações agora colecionam armas nucleares.

São fáceis de fazer.

Você pode roubar material fissionável de reatores nucleares.

Armas nucleares quase se tornaram uma indústria artesanal caseira.

As bombas convencionais da II Guerra Mundial foram chamadas "arrasa quarteirão".

Abastecidas com 20 toneladas de TNT, poderiam destruir um quarteirão.

Todas as bombams lançadas sobre todas as cidades da II Guerra Mundial

juntas somam 2 milhões de toneladas de TNT.

2 megatons.

Coventry e Rotterdam.

Dresden e Tokyo.

Toda a morte que chovia do céu

entre 1939 e 1945.

100.000 arrasa quarteirões. Dois megatons.

Hoje, dois megatons é o equivalente a uma simples bomba termonuclear.

Uma única bomba com a força destrutiva

da II Guerra Mundial.

Mas existem dezenas de milhares de armas nucleares.

Os mísseis e bombardeiros da União Soviética e Estados Unidos

têm suas cabeças guerreiras apontadas para 15 mil alvos.

Nenhum lugar no planeta está salvo.

A energia contida nestas armas

gênios da morte

pacientemente aguardando o esfregar da lâmpada

superam os 10 mil megatons.

Mas com a destruição concentrada eficientemente

não em seis anos, mas em poucas horas.

Um "arrasa quarteirão" para cada família sobre o planeta.

Uma II Guerra Mundial a cada segundo

em uma tarde ociosa.

A bomba que caiu sobre Hiroshima

matou 70 mil pessoas.

Em uma completa troca nuclear

no ataque de morte global

o equivalente a um milhão de bombas de Hiroshima

seriam jogadas em todo o mundo.

Em uma troca como esta nem todos seriam mortos

pela explosão, fogo e radiação imediata.

Haveriam outras agonias:

Perda dos entes queridos

legiões de queimados, cegos e mutilados

ausência de cuidados médicos

doenças, pragas

uma radiação de longa vida envenenando o solo e a água.

A ameaça de tumores, natimortos e crianças malformadas.

E o desespero de uma civilização destruída por nada.

Saber que poderíamos ter prevenido mas não o fizemos.

O equilíbrio global de terror

liderado pelos Estados Unidos e a União Soviética

fez de reféns todos os cidadãos da Terra.

Cada lado prova persistentemente

os limites da tolerância do outro

como a crise de mísseis cubanos

os testes de armas anti-satélites

as guerras do Vietnã e Afeganistão.

As instituições militares hostis

estão presas em algum horrível abraço mútuo.

Um necessita do outro.

Mas o equilíbrio do terror é delicado

com pouca margem para erros

e o mundo empobrece a si mesmo

gastando um trilhão de dólares por ano em preparações para a guerra.

E empregando talvez

metade dos cientistas e grandes tecnólogos do planeta

em empreendimentos militares.

Como poderíamos explicar tudo isso

para um desinteressado observador extraterrestre?

Que conta nós daríamos da administração

do planeta Terra?

Nós ouvimos as razões dadas pelas superpotências.

Sabemos quem fala pelas nações.

Mas quem fala pela espécie humana?

Quem fala pela Terra?

De uma perspectiva extraterrestre, nossa civilização global

está claramente no limite do fracasso

em uma das mais importantes tarefas:

preservar a vida e o bem-estar dos cidadãos

e o futuro habitável do planeta.

Mas se desejamos viver com a ameaça crescente de guerra nuclear

não deveríamos também desejar explorar vigorosamente

toda maneira possível de evitá-la?

Não deveríamos considerar em cada nação

maiores mudanças nas formas tradicionais de fazer as coisas?

Uma reestruturação fundamental

de instituições econômicas, políticas, sociais e religiosas?

Chegamos a um ponto onde não deve mais haver

casos e interesses particulares.

Armas nucleares ameaçam cada pessoa sobre a Terra.

Mudanças fundamentais na sociedade às vezes são rotuladas

impraticáveis ou contrárias à natureza humana

como se uma guerra nuclear fosse prática

ou como se existisse somente uma natureza humana.

Mas mudanças fundamentais podem claramente ser feitas.

Estamos rodeados delas.

Nos últimos dois séculos, a vil escravidão

que nos acompanhou por milhares de anos

tem sido quase totalmente eliminada

em uma impressionante revolução mundial.

As mulheres, sistematicamente maltratadas durante milênios

estão gradualmente ganhando o poder econômico e político

que tradicionalmente lhes eram negados.

E algumas guerras tem sido recentemente paradas ou encurtadas

devido a repulsa sentida

pelo povo nas nações agressoras.

O velho apelo

ao chauvinismo religioso, racial e sexual

e o fervor nacionalista raivoso

começam a não funcionar.

Está se desenvolvendo uma nova consciência que vê a Terra

como um único organismo

e reconhece que um organismo em guerra consigo mesmo

está condenado.

Nós somos um só planeta.

Uma das grandes revelações da era das explorações espaciais

é a imagem de uma Terra finita e só

algo vulnerável, levando toda a espécie humana

através de oceanos de espaço e tempo.

Mas esta é uma percepção antiga.

No século 3 a.C.

nosso planeta foi mapeado e precisamente medido

por um cientista grego chamado Eratóstenes, que trabalhava no Egito.

Este era o mundo como ele conhecia.

Eratóstenes era o diretor

da grande Biblioteca de Alexandria

o centro da ciência e do saber no mundo antigo.

Aristóteles defendia que a humanidade estava dividida entre gregos

e todos os outros, a quem ele chamava de "bárbaros"

e que os gregos deveriam manter-se racialmente puros.

Ele achava adequado que os gregos escravizassem outros povos.

Mas Eratóstenes criticava Aristóteles por seu chauvinismo cego.

Acreditava que havia bondade e maldade em todas as nações.

Os gregos conquistadores tinham inventado um novo deus para os egípcios

mas seu aspecto era notadamente grego.

Alexandre foi retratado como faraó

em um gesto para os egípcios.

Mas na prática, os gregos eram confiantes em sua superioridade.

Os protestos do bibliotecário não constituíam uma ameaça séria

aos preconceitos dominantes.

Seu mundo era tão imperfeito quanto o nosso.

Mas os Ptolomeus, reis gregos do Egito que sucederam Alexandre

tinham pelo menos esta virtude:

apoiavam o avanço do conhecimento.

Idéias populares sobre a natureza do cosmo foram desafiadas

e algumas delas, descartadas.

Novas idéias foram propostas

e se mostraram em melhor acordo com os fatos.

Haviam propostas imaginativas, debates vigorosos

sínteses brilhantes.

O tesouro resultante do saber

foi registrado e preservado por séculos

sobre estas prateleiras.

A ciência tornou-se adulta nesta biblioteca.

Os Ptolomeus não meramente colecionaram o velho conhecimento.

Eles apoiaram pesquisas científicas e geraram novos conhecimentos.

Os resultados foram surpreendentes.

Eratóstenes corretamente calculou o tamanho da Terra.

Mapeou-a

e afirmou que ela poderia ser circunavegada.

Hiparcus antecipou que as estrelas se formam

e vagarosamente movem-se durante o curso de séculos

e finalmente desaparecem.

Foi ele quem primeiro catalogou

as posições e magnitudes das estrelas

de modo a determinar se tais mudanças existiam.

Euclides produziu um livro sobre geometria

com o qual os seres humanos aprenderam por 23 séculos.

Ele ainda é uma grande leitura, cheia das mais elegantes demonstrações.

Galen escreveu trabalhos básicos sobre cura e anatomia

que dominaram a medicina até a Renascença.

Estes são apenas uns poucos exemplos.

Aqui houveram dúzias de grandes eruditos

e centenas de descobertas fundamentais.

Algumas daquelas descobertas têm um chamado distintamente moderno.

Apolônio de Perga estudou a parábola e a elipse

que agora sabemos, descrevem a trajetória de objetos caindo

em um campo gravitacional

e de veículos espaciais viajando entre os planetas.

Heron de Alexandria inventou máquinas a vapor e trens de engrenagens

e foi o autor do primeiro livro sobre robôs.

Imagine como nosso mundo seria diferente se aquelas descobertas

tivessem sido usadas para o benefício de todos.

Se a perspectiva humana de Eratóstenes

tivesse sido amplamente adotada e aplicada.

Mas não foi.

Alexandria foi a maior cidade

que o mundo Ocidental já havia visto.

Pessoas de todas as nações vinham aqui

para viver, comercializar, aprender.

Em um dia qualquer

estes portos estavam apinhados

com mercadores, sábios e turistas.

É provavelmente aqui

que a palavra "cosmopolita" teve seu verdadeiro sentido

de ser um cidadão não de uma nação

mas sim do cosmo.

Ser um cidadão do cosmo.

Aqui estão claramente as sementes do nosso mundo moderno.

Mas por que não criaram raízes e floresceram?

Por que o ocidente dormiu durante 1000 anos de obscuridade

até Colombo, Copérnico e seus contemporâneos

redescobrirem o trabalho feito aqui?

Eu não posso lhes dar uma resposta simples

mas eu sei isso:

não existe registro em toda a história da biblioteca

de que qualquer dos ilustres sábios e cientistas que trabalharam aqui

tenha desafiado seriamente

uma única suposição política, econômica ou religiosa

da sociedade na qual viveu.

A permanência das estrelas era questionada.

A justiça da escravidão não.

A ciência e o saber em geral

se reservavam a uns poucos privilegiados.

A grande população desta cidade não tinha a mais vaga noção

das grandes descobertas que estavam sendo feitas no interior destas paredes.

Como eles poderiam?

Os novos achados não eram explicados ou popularizados.

O progresso feito aqui os beneficiava pouco.

A ciência não era parte de suas vidas.

As descobertas em mecânica, por exemplo

ou na tecnologia do vapor

eram principalmente aplicadas ao aperfeiçoamento de armas

para fomentar a superstição

para entreter os reis.

Os cientistas nunca pareceram compreender o enorme potencial

das máquinas para libertar pessoas

do árduo e repetitivo trabalho.

As realizações intelectuais da antigüidade

tinham pouca aplicação prática.

A ciência nunca capturou a imaginação da multidão.

Não havia contrapeso para a estagnação, para o pessimismo

para a mais miserável rendição ao misticismo.

Então, por fim

quando a multidão veio queimar o lugar

não houve nada capaz de detê-la.

Deixe-me contar-lhes o final.

É uma estória sobre o último cientista a trabalhar neste lugar.

Dedicou-se à matemática, astronomia, física

e dirigiu a escola de filosofia Neo-Platônica em Alexandria.

O que é um extraordinário conjunto de talentos

para qualquer indivíduo, em qualquer era.

Seu nome era Hipácia.

Ela nasceu nesta cidade, no ano de 370 d.C.

Nesta época, as mulheres não tinham opções.

Elas eram consideradas propriedade.

Entretanto, Hipácia podia mover-se livremente

com naturalidade

através de domínios tradicionalmente masculinos.

Comenta-se que era muito bela.

E embora tivesse muitos pretendentes

ela não tinha interesse no casamento.

A Alexandria do tempo de Hipácia, há muito tempo sob as regras romanas

era uma cidade em grave conflito.

A escravidão, câncer do mundo antigo

tinha extraído a vitalidade da civilização clássica.

A emergente Igreja Cristã estava

consolidando seu poder

e tentando erradicar a cultura e influência pagãs.

Hipácia estava no foco

no epicentro de forças sociais poderosas.

Cirilo, bispo de Alexandria, a menosprezava

em parte devido a sua amizade com um governante romano

mas também porque ela era o símbolo do saber e da ciência

os quais eram enormemente relacionados com o paganismo pela Igreja primitiva.

Em grande perigo pessoal

Hipácia continuou a ensinar e a publicar

até que, no ano de 415 d.C., a caminho do trabalho

ela foi atacada

por uma multidão fanática de seguidores de Cirilo.

Eles a puxaram de sua carruagem

rasgaram suas roupas

e esfolaram sua carne até os ossos

com conchas marinhas.

Seus restos mortais foram queimados, seu trabalho foi destruído

seu nome foi esquecido.

Cirilo foi proclamado santo.

A glória que você vê ao meu redor

não passa de lembranças.

Ela não existe.

Os últimos vestígios da biblioteca foram destruídos

dentro de um ano da morte de Hipácia.

É como se toda uma civilização tivesse sofrido

um tipo de autocirurgia cerebral, radical

que a maioria de suas lembranças

descobertas, idéias e paixões

foram apagadas irrevogavelmente.

A perda foi incalculável.

Em alguns casos, nós sabemos apenas

os títulos provocantes dos livros que foram destruídos.

Na maioria dos casos não sabemos os títulos nem os autores.

Sabemos que nesta biblioteca

haviam 123 diferentes peças de Sófocles

das quais apenas sete sobreviveram até nosso tempo.

Uma delas é "Édipo Rei".

Um número semelhante refere-se aos trabalhos perdidos de

Ésquilo, Eurípedes, Aristófanes.

É um pouco como se as únicas obras sobreviventes de um homem chamado

William Shakespeare

fossem Coriolanus e Um Conto de Inverno

embora saibamos que ele escreveu muitas outras coisas

as quais foram altamente apreciadas em sua época.

Obras chamadas Hamlet, Macbeth

Sonhos de Uma Noite de Verão, Júlio César, Rei Lear

Romeu e Julieta.

A história é cheia de pessoas

que por temor ou ignorância

ou ambição pelo poder

destruíram tesouros de valor incalculável

que na verdade pertenciam a todos nós.

Não podemos deixar que isso aconteça novamente.

Nós temos considerado a destruição de mundos

e o fim de civilizações.

Mas existe outra perspectiva para medir a capacidade humana.

Deixe-me contar uma história sobre o início.

Uns 15 bilhões de anos atrás

nosso universo se inicia

com a mais poderosa explosão de todos os tempos.

O universo expandiu, esfriou e escureceu.

A energia foi condensada em matéria, principalmente em átomos de hidrogênio.

E estes átomos se acumularam em vastas nuvens

que se dividiram

e que um dia tornaram-se galáxias.

Dentro destas galáxias nasceu a primeira geração de estrelas

incendiando a energia escondida na matéria

inundando com luz o cosmo.

Os átomos de hidrogênio fizeram sóis e brilhos estelares.

Naquele tempo, não haviam planetas para receber a luz

e nenhuma criatura para admirar o esplendor dos céus.

Mas dentro das fornalhas estelares

a fusão nuclear foi criando átomos mais pesados:

carbono e oxigênio, ferro e silício.

Estes elementos, cinzas deixadas pelo hidrogênio

foram a matéria prima para surgirem os planetas e a vida.

A princípio, os elementos pesados estavam no interior das estrelas.

Mas estrelas com grande massa logo esgotam seu combustível

e em sua agonia

liberam a maior parte de sua matéria para o espaço.

O gás interestelar tornou-se rico em elementos pesados.

Na galáxia Via-Láctea

a matéria do cosmo foi reciclada em uma nova geração de estrelas

agora ricas em átomos pesados.

Um legado de seus ancestrais estelares.

E no frio espaço interestelar

grandes nuvens turbulentas foram agrupadas pela gravidade

e agitadas pela luz estelar.

Em suas profundezas

os átomos pesados se condensaram em pó rochoso e gelo

e complexas moléculas baseadas em carbono.

De acordo com as leis da física e da química

os átomos de hidrogênio produziram a matéria da vida.

Em outras nuvens, mais agregados de gás e poeira

formaram gerações posteriores de estrelas.

Como novas estrelas foram formadas

minúsculas condensações de matéria cresceram próximas a elas

ciscos imperceptíveis de rocha e metal, gelo e gás

que se tornariam os planetas.

E sobre estes mundos, como em nuvens interestelares

moléculas orgânicas se formaram

feitas de átomos cozidos no interior das estrelas.

Nos oceanos de muitos mundos

a luz solar destruiu moléculas que se reuniram pela química.

Um dia, nestes experimentos naturais

por acidente surgiu uma molécula

capaz de fazer várias cópias de si mesma.

Com o passar do tempo, a auto-replicação se tornou mais precisa.

As moléculas que copiavam melhor

produziram mais cópias.

A seleção natural estava em andamento.

Máquinas moleculares elaboradas se desenvolveram.

Devagar, imperceptivelmente, teve início a vida.

Coligados de moléculas orgânicas evoluíram em organismos unicelulares.

Que produziram colônias multicelulares.

Suas várias partes se tornaram órgãos especializados.

Algumas colônias se fixaram ao solo marinho

outras nadavam livremente.

Surgiram olhos, agora o cosmo podia ver.

Os seres vivos colonizaram a terra.

Os répteis dominaram durante um tempo

mas deram espaço para pequenas criaturas de sangue quente com cérebros grandes

que desenvolveram sagacidade e curiosidade pelo seu ambiente.

Eles aprenderam a usar ferramentas, o fogo e a linguagem.

Das cinzas da alquimia estelar

emergiu a consciência.

Nós somos o caminho para o cosmo conhecer a si mesmo.

Nós somos criaturas do cosmo

e sempre quisemos conhecer nossas origens

para compreender nossa conexão com o universo.

Como tudo surgiu?

Cada cultura no planeta inventou sua própria resposta

para o enigma proposto pelo universo.

Cada cultura celebra os ciclos de vida e a natureza.

Há muitas formas distintas de ser humano.

Mas um visitante extraterrestre

examinando as diferenças entre as sociedades humanas

as acharia triviais

comparadas às suas semelhanças.

Nós somos uma única espécie.

Somos matéria estelar, cultivando a luz das estrelas.

Nossas vidas, nosso passado e futuro

estão ligados ao sol, à lua e às estrelas.

Nossos ancestrais sabiam que sua sobrevivência dependia

de compreender os céus.

Eles construíram observatórios e computadores

para prever as mudanças de estações pelos movimentos celestes.

Todos nós somos

descendentes de astrônomos.

A descoberta da ordem no universo

das leis da natureza

é a base da ciência atual.

Nossa concepção de cosmo

toda a tecnologia e a ciência moderna

remontam às questões feitas pelas estrelas.

Inclusive, há 400 anos atrás

nós ainda não tínhamos idéia do nosso lugar no universo.

A longa jornada para a compreensão

requer um inabalável respeito pelos feitos

e encantos do mundo natural.

Johannes Kepler escreveu:

"Nós não perguntamos qual a utilidade do canto de um pássaro

cantar é seu prazer, assim eles foram criados para cantar.

Semelhantemente

nós não devemos perguntar por que a mente humana se preocupa

por penetrar os segredos dos céus.

A diversidade de fenômenos naturais é tão grande

e os tesouros escondidos nos céus são tão ricos

precisamente com o fim

de que a mente humana nunca fique sem alimento."

O redescobrimento do cosmo

é o direito de toda criança

em todas as culturas ou tempos.

Quando isso acontece conosco, experimentamos uma profunda e maravilhosa admiração.

Os mais afortunados entre nós são guiados por professores

que canalizam este alvoroço.

Nós nascemos para nos encantarmos com o mundo.

Somos ensinados a distingüir nossos preconceitos da verdade.

Novos mundos são descobertos

quando deciframos os mistérios do cosmo.

A ciência é um empreendimento coletivo

que abraça muitas culturas e gerações.

Em toda época, e às vezes em lugares menos propícios

existem aqueles que desejam compreender o mundo

com grande paixão.

Nós não sabemos de onde virá a próxima descoberta.

Que sonho da imaginação irá reconstruir o mundo.

Estes sonhos começam como impossibilidades.

Houve um tempo em que ver um planeta através de um telescópio era um assombro.

Mas nós estudamos estes mundos

entendemos como se moviam em suas órbitas

e logo planejamos viajens exploratórias

além da Terra

e enviamos robôs exploradores para os planetas e as estrelas.

Nós, humanos, desejamos estar conectados com nossas origens

assim criamos rituais.

A ciência é uma maneira de expressar este desejo.

Ela também nos conecta com nossas origens.

E também tem seus rituais e direções.

Sua única verdade sagrada é que não existem verdades sagradas.

Todas as suposições devem ser examinadas criticamente.

Argumentos de autoridade não têm valor.

O que estiver inconsistente com os fatos

não importa o quanto gostemos

deve ser descartado ou revisado.

A ciência não é perfeita.

É muitas vezes mal utilizada.

É somente uma ferramenta.

Mas é a melhor ferramenta que temos

se autocorrige, se modifica

é aplicável a tudo.

Com esta ferramenta, nós superamos o impossível.

Com os métodos da ciência

começamos a explorar o cosmo.

Pela primeira vez, descobertas científicas

são amplamenta acessíveis.

Nossas máquinas

os produtos da ciência

já estão além da órbita de Saturno.

Foram reconhecidos 20 novos mundos

por uma espaçonave preliminar.

Nós aprendemos a valorizar as observações cuidadosas

a respeito dos fatos, mesmo quando são inquietantes

quando parecem contradizer a sabedoria convencional.

Os monges de Canterbury registraram fielmente um impacto na lua

e os Anasazi, a explosão de uma estrela distante.

Eles viram por nós, como nós vemos por eles.

Vemos mais que eles pois estamos sobre seus ombros.

Nos baseamos no que eles sabiam.

Dependemos da investigação

e do livre acesso ao conhecimento.

Nós temos visto os átomos que constituem toda a matéria

e as forças que modelam este e outros mundos.

Nós sabemos que as moléculas da vida

são facilmente formadas em condições comuns

em toda parte do cosmo.

Nós mapeamos as máquinas moleculares no centro da vida.

Nós descobrimos um microcosmo em uma gota de água.

Observamos o interior do fluxo sanguíneo

e de nosso tormentoso planeta

para ver a Terra como um único organismo.

Encontramos vulcões em outros mundos

e explosões no sol

estudamos cometas das profundezas do espaço

e traçamos suas origens e destino

ouvimos pulsares

e procuramos por outras civilizações.

Nós, humanos, já colocamos os pés em outro mundo

em um lugar chamado Mar da Tranqüilidade

uma extraordinária façanha para criaturas como nós

cujos primeiros passos, há 3,5 milhões de anos

estão preservados nas cinzas vulcânicas do Leste da África.

Temos caminhado muito.

Estas são algumas das coisas feitas pelos átomos de hidrogênio

em 15 bilhões de anos de evolução cósmica.

Isto soa como um mito épico.

Mas é simplesmente uma descrição

da evolução do cosmo

revelada pela ciência de nossos dias.

E nós

que personificamos os olhos e ouvidos locais

e os pensamentos e sentimentos do cosmo

começamos finalmente a nos perguntar sobre nossas origens.

Matéria estelar, contemplando as estrelas

10 bilhões de bilhões de bilhões de átomos ordenados

contemplando a evolução da matéria

traçando o longo caminho que conduziu à consciência

aqui no planeta Terra

e quem sabe, em todo o cosmo.

Nossa lealdade é frente as espécies e o planeta.

Nós falamos pela Terra.

A obrigação de sobreviver e prosperar

não é apenas nossa

mas também do cosmo, antigo e vasto

do qual procedemos.

Minha maior emoção em reviver esta aventura

não é só em haver completado

o reconhecimento de todo o sistema solar

com espaçonaves.

E não somente porque descobrimos

maravilhosas estruturas nos domínios das galáxias

mas especialmente

que alguns dos mais arrojados sonhos de Cosmos sobre este mundo

estão perto de se tornar realidade.

Desde a viagem inaugural desta série

aconteceram coisas impossíveis.

Os grandes muros que mantinham diferenças ideológicas insuperáveis

desmoronaram.

Inimigos mortais se abraçaram e começaram a trabalhar juntos.

O imperativo de valorizar a Terra

e proteger o ambiente global que sustenta todos nós

tem sido amplamente aceito.

E nós começamos, finalmente

o processo de redução

do obsceno número de armas de destruição em massa.

Quem sabe, depois disso tudo

decidiremos escolher a vida.

Mas ainda falta muito para assegurar esta escolha

inclusive após tratados e cerimônias.

Ainda existem cerca de 50 mil armas nucleares no mundo

e seria necessário a detonação de apenas uma diminuta fração delas

para produzir um inverno nuclear

a catástrofe climática global prognosticada

que resultaria da fumaça e poeira levantada para a atmosfera

pela queima de cidades e instalações petrolíferas.

A comunidade científica mundial soou o alarme

sobre os graves perigos apresentados

pela destruição da camada de ozônio

e pelo efeito estufa.

E novamente tomamos medidas mitigantes.

Mas estas medidas são muito pequenas

e muito lentas.

A descoberta de que o inverno nuclear é realmente possível

surgiu de estudos de tempestades de poeira marcianas.

A superfície de Marte, castigada por raios ultravioleta

é também um lembrete da importância

de manter nossa camada de ozônio intacta.

O efeito estufa em Vênus

é um lembrete valioso

de que devemos levar a sério o seu crescimento na Terra.

Lições importantes sobre nosso ambiente

surgiram de missões espaciais para outros planetas.

Explorando outros mundos

nós resguardamos este.

Por si, este fato mais do que justifica

o dinheiro empregado

para enviar naves para outros mundos.

É nosso destino

viver durante um dos capítulos

mais perigosos e esperançosos

na história humana.

Nossa ciência e tecnologia

nos atribuiu

uma profunda questão:

Nós aprenderemos a usar estas ferramentas

com sabedoria e precaução antes que seja tarde demais?

Veremos nossa espécie passar a salvo por esta dificuldade

para que nossos filhos e netos aprofundem

a grande jornada de descoberta

dos mistérios do cosmo?

A mesma tecnologia cibernética, nuclear e espacial

que envia nossas naves além dos planetas conhecidos

pode também ser usada para destruir nossa civilização.

Exatamente a mesma tecnologia

pode ser usada para o bem

e para o mal.

É como se

houvesse um Deus

que nos dissesse:

"Lhes ofereço dois caminhos.

Você pode usar sua tecnologia para autodestruição

ou para levá-lo aos planetas e estrelas.

Depende de você".

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The Description of Carl Sagan Cosmos 13 Quem Pode Salvar A Terra (Legendado)